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A difícil, indispensável e intransferível tarefa de se fazer escolhas pessoais

escolhas-pessoais

É axiomática a afirmação segundo a qual somos o produto das escolhas que fazemos. De maneira mais contundente, isto quer dizer que nossas escolhas determinam e escrevem o nosso destino. Se olharmos esta afirmação com a atenção e seriedade que ela merece, seremos normalmente tomados por um choque de um misto de medo e, ao mesmo tempo, de entusiasmo, por sermos imediatamente tomados pela consciência- ainda que difusa- de que se trata de nosso confronto relacional para com um elemento da existência que, paradoxalmente, mais pavor e intensa alegria impingem ao ser humano: a grande liberdade que a vida nos oferece de vivê-la como mais nos aprouver, ou de outra maneira, como escolhermos viver.

Neste sentido, uma das maiores responsabilidades que temos para com a vida é a de fazermos escolhas conscientes, e, não menos importante, nos comprometermos integralmente com elas. Quanto maior a consciência, maior a possibilidade de nos comprometermos, e quanto maior o comprometimento, maior a chance de sucesso do empreendimento resultante da escolha, qualquer que seja ela. Independente do resultado final, muito grande é a chance de que a jornada em direção ao alvo almejado será de intensa participação e regozijo, visto que realização e crescimento estarão presentes- isto ocorre porque executando algo que faz sentido, tem a força do comprometimento, e está dentro do limite superior das capacidades da pessoa, representando para ela um bom desafio, muito grande será a chance de ela entrar naquilo que já foi descrito por “estado de fluxo”, onde o melhor da pessoa, em elevado estado de concentração e entrega, se faz presente naturalmente.

Uma escolha é feita de maneira consciente quando ela é articulada à luz e colimando-a com critérios voluntária e claramente definidos pela pessoa que escolhe. Mas por que é tão difícil fazer escolhas? Várias são as razões, e me concentrarei em três das mais importantes, como segue. M. Scott Peck em sua extraordinária e absolutamente imperdível trilogia “ A trilha menos percorrida”, começando por “The road less travelled” ( A trilha menos percorrida), nos ensina que duas forças de grande poder, e que atuam permanentemente de maneira entrópica em sentido contrário ao de nossa evolução espiritual, são o que ele chama de “inércia da preguiça” e a “resistência do medo”. Sim, no caso de escolhas a fazer, temos tanto preguiça de pensar de maneira articulada- isto demanda esforço voluntário concentrado-, quanto sentimos medo de natureza diversa. Um dos medos que sentimos- e aqui vai a segunda razão da dificuldade em se fazer escolhas- é o trazido pela percepção de que ao fazermos a escolha, termos que assumir a responsabilidade nós próprios, e não outrem, pela escolha feita. Não haverá espaço então para quaisquer desculpas do tipo “estava confuso, e não sabia exatamente o que queria…”, ou “não dei a atenção devida por estar muito ocupado…”, e, muito menos, para culpar outrem.

Por último, outro medo considerável, presente em praticamente todos os casos de dificuldades em se fazer escolhas, porque da natureza intrínseca do processo, é o resultante de se saber implicitamente que ao se escolher algo, deixa-se de escolher algo mais, ou seja, a percepção, normalmente difusa, de que toda escolha pressupõe o abdicar-se de algo mais, no caso, de todas as outras escolhas que se poderia fazer. O que resulta deste jogo interno- que em muitos casos se transforma em guerra de repercussões psicoemocionais desagradáveis e muito pouco produtivas- é que o sujeito parece ficar muito mais preocupado com o que deixa de escolher e “vai perder”- uma ilusão-, e, por isso, impedido de pensar no que vai ganhar, a sua legítima escolha. E como resolver este nó, que em muitos casos ao longo da vida se transforma em sangrenta batalha existencial? A resposta está na busca corajosa por congruência pessoal e respeito à própria integridade, o que significa aderência a um código de valores pessoais. Assim, conhecer e, mais importante ainda, respeitar os valores pessoais é chave e altamente libertador. É tarefa difícil, mas indispensável.

Caminhos e técnicas que têm como fundamento o respeito a valores pessoais permitem responder de questões triviais como “viajo de férias para a Europa ou para os Estados Unidos?”, a mais complexas como “permaneço nesta empresa em face dos últimos acontecimentos, ou peço demissão?”, “mudo de emprego ou de profissão?”, “mudo de cidade?”, “Para que cidade?”, ou mais difícil ainda “mantenho o meu casamento, ou me separo?”. O livro “Conduzindo a própria mudança” que escrevi traz diversos exemplos de processos articulados de escolhas feitas conscientemente, que ensinam algumas técnicas de como fazer escolhas articuladas e fundadas em valores. O caminho passa sempre por alargamento da consciência sobre nós próprios, nossos valores mais profundos, coragem para segui-los, e assunção de responsabilidades pessoais diante da liberdade de viver. Rollo May, já no prefácio de Liberdade e Destino, diz que “Liberdade é a maneira como nos relacionamos com o nosso destino, e o destino só é significativo porque temos liberdade. Na luta de nossa liberdade contra e com o destino, nasceram nossa criatividade e nossas civilizações”. Caro leitor, quais são os seus “nós” existenciais do presente? Você já os reviu á luz de seus valores pessoais? Você conhece os seus valores pessoais, e tem a coragem de respeitá-los e agir de acordo com eles?

São Paulo, 29 de agosto de 2015.

Joel Câmara
Diretor da CoaChange42.
Performance Executive Coach pela PCI- Performance Consultants International (London- UK) e Associate Certified Coach pelo ICF-International Coach Federation .
Foi Plant Manager das duas fábricas de aluminio da ALCOA no Brasil, e diretor industrial e presidente da Hydro Alunorte.
Escreveu o livro “Conduzindo a própria mudança”.

Leituras recomendadas:
A descoberta do fluxo, de Mihaly Csikszentmihalyi A trilogia “A trilha menos percorrida”, de M. Scott Peck
Conduzindo a própria mudança, de Joel Câmara.

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2 comentários

Escolhas difíceis, definem o que seremos
As vezes foram cortes necessários para ficarmos inteiros.

Sim, o processo de ficar inteiro é continuamente construtivo do novo e continuamente desconstrutivo do velho…como na metáfora da águia, que tem que renovar todas as suas penas para alçar novo voo…

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