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O Pacto Pessoal

Vimos em “O que fazem os líderes” que os comportamentos dos líderes seguem o que eles são, sendo consequência natural de suas crenças e de seus paradigmas fundado em valores. Vimos, também, que na construção do “ser” empresarial, os elementos que constituem a identidade e a fundação empresarial, que precede o seu “fazer”, os líderes se preparam “individual e intimamente no início e ao longo de cada jornada, o trabalho a empreender, o desafio a enfrentar e superar, elaborando e escrevendo o que chamo de ‘pacto pessoal’”.

Um pacto é promessa de realização ou entrega de algo imaginado que é bastante meritoso, porque muito desafiante e demandante de coragem e de grande esforço empreendedor. Quando realizados, os pactos geram expansão de fronteiras benignas do ser, da capacidade de fazer e de motivação para fazer mais porque fundados em crenças de autoeficácia (1) que se auto reforçam. Também, crescem a ética individual e coletiva com a realização.

Os pactos têm o poder de aprofundar a compreensão das causas e de seus fundamentos, de selar acordos individuais e coletivos e de, a partir deles, gerar a motivação que fortalece e vivifica o espírito e robustece a força para a ação.

De tempos em tempos, o contexto histórico de uma pessoa ou de toda uma coletividade aponta para a necessidade de celebração de pactos em face de grandes desafios que se apresentam. Ao longo da história, países e suas sociedades celebraram pactos que lhes conferiram grandes transformações e, decorrentes delas, renovada união e fortalecida identidade coletiva. Em momentos cruciais da história de seus países ou organizações, os grandes líderes sabem como poucos se apropriar das grandes causas e de maneira poderosa celebrar pactos que as fazem ganhar altitude e prosperar no tempo. Como exemplo de grande poder de inspiração para a história da humanidade, este foi o caso do pacto da não violência de Gandhi que fez o império britânico se curvar e liberar a Índia do domínio de sua coroa. O nosso país, vive um contexto histórico de grande potencialidade e que pede urgência para a celebração de um pacto absolutamente necessário: o pacto da sociedade brasileira pela ética na política e pela eliminação da lastimável chaga da corrupção que desavergonhadamente rouba e empobrece o povo brasileiro, vitimando principalmente os mais pobres, e, mais grave que isto, enfraquece perigosamente o senso de decência coletiva, de força e utilidade do arcabouço legal constituído, do estado de direito, e, em casos mais graves já manifestos, enfraquece a crença na própria democracia.

Na vida organizacional, os líderes, sempre envolvidos com necessidades contínuas de mudança, muitas das quais de grande complexidade e com a urgência sempre “esmurrando” em suas portas, estão sempre sendo instigados a celebrar pactos com suas equipes e organizações.

No plano individual, os pactos revelam-se bastante úteis e ganham grande força quando mente e coração desejam ardentemente vencer ou realizar algo, um grande projeto de natureza transformacional, individual ou coletivo.

Os pactos, quando bem celebrados, incorporam características ritualísticas no sentido de que, por exemplo, constroem uma aura que confere luz e poder próprios à causa abraçada. Nela, almeja-se passagem por porta estreita e avanço em caminho escarpado e difícil a vivificar a jornada do herói (2).

Os pactos de grande poder transformacional guardam características como as que seguem:

• Quanto ao contexto: representa uma necessidade (normalmente coletiva) inquestionável, ainda que, por vezes, não completamente clara, por não ter sido articulada na necessária construção do vínculo que une mentes e corações.

• Quanto ao objetivo final: é grandioso quase a sugerir “ser impossível de alcançar” e, por isto, bastante meritoso, se alcançado. É de natureza bastante ecológica no sentido de ser bom para todos.

• Quanto às atitudes, demandam particularmente dos líderes:

o Grande poder de aglutinação, de envolvimento e engajamento grupal;

o Poder de pregação dos fundamentos e benefícios individual e coletivo da causa para gerar a faísca e o fogo, a motivação necessária;

o Grande dedicação, sacrifício de interesses individuais em prol do coletivo;

o Consciência de que a jornada será longa, demandante de grande poder de resiliência;

o Presença constante, onde liderar pelo exemplo é crucial.

• Quanto à gestão:

o Grande poder de organização, coordenação e foco;

o Força de planejamento e de flexibilidade para adaptar os planos de maneira permanente, tendo a meta final como luz soberana a guiar os avanços, ficando claro que para avançar será necessário recuar às vezes.

Jornadas como estas exigem do líder principal que ele, antes de inicia-las, elabore o próprio pacto pessoal. Este será tanto mais forte quanto mais contemplar e incorporar caminhos como os seguintes:

• O princípio de tudo: consulta à missão e valores pessoais. A jornada a empreender é harmônica e congruente com eles e os robustece?

• Antevisão e avaliação cuidadosa da jornada inteira a percorrer e dos desafios e possíveis armadilhas do caminho;

• Avaliação realística e verdadeira dos recursos a providenciar e dos sacrifícios pessoais a fazer e da capacidade de entrega-los e realiza-los;

• Visando o comprometimento pessoal total e irrestrito, um ritual final faz-se necessário e ele deve contemplar os seguintes elementos na maneira que mais fizer sentido e causar impacto a cada um:

o Uma declaração articulada entre mente e coração da entrega pessoal que será feita e das atitudes que se farão presentes;

o O registro desta declaração em modo que possa ser acessado diariamente- um diário, uma folha de flip chart, voz gravada, ou outro modo que confira o máximo de energia a quem celebra o pacto;

o Uma primeira leitura em voz alta, em dia necessariamente solitário, diante do espelho, em retiro forçado diante do mar, em uma reserva afastada, no interior de uma floresta, no topo de uma montanha, etc.

Em meu ultimo desafio profissional como principal executivo da maior planta industrial do mundo em seu segmento, ter feito isto foi de especial valor para mim, na maneira em que me articulava internamente, e, em congruência com esta articulação, agia e entregava externamente. Com o time de gerentes que liderei- gente talentosa e que excedeu em dedicação e comprometimento- registramos marcante presença no “chão de fábrica” para apoiar e engajar toda a organização, e, em tempo muito desafiante e de necessidade crucial de mudanças, muitos desafios ainda por superar, estabelecemos avanços expressivos, bastante reconhecidos por toda a corporação.

Em resumo, em contextos históricos especiais, o pacto pessoal é você com você diante de um desafio que se apresenta, de uma necessidade crucial que pede por solução, ou de uma jornada que você há muito almeja empreender. Na celebração do pacto pessoal, você mergulha em si próprio, sua missão, seus princípios e valores, pesa as suas forças e limitações pessoais, e articula tudo isto em um contundente acordo interno que, você olhando em seus próprios olhos, ao final diz “vou com todo o meu empenho e fé contribuir com toda a minha força e talentos, e ajudar a fazer o que precisa ser feito!”.

Estamos vivendo a primeira semana de um novo ano, tempo de revisão e de acordos necessários, tempo bastante propício para a celebração de pactos para resolver ou alavancar situações e oportunidades que já não podem esperar mais.

Leitor amigo, líder organizacional, que pactos estão esperando por você, sua reflexão, articulação e decisão?

O que te impede de enfrentá-los?

Façamos construir por livre e consciente escolha e ação focada um produtivo e feliz 2016!

São Paulo-SP/ Rio Quente- GO, 07/01/16.

Joel Câmara
Diretor da CoaChange42.
Performance Executive Coach pela PCI- Performance Consultants International (London- UK) e Associate Certified Coach pelo ICF-International Coach Federation .
Foi Plant Manager das duas fábricas de aluminio da ALCOA no Brasil, e diretor industrial e presidente da Hydro Alunorte.
Escreveu o livro “Conduzindo a própria mudança”.

Notas:

(1) Albert Bandura definiu autoeficácia como “as crenças das pessoas em suas capacidades de produzir efeitos desejados por meio de suas próprias ações”.

(2) Ver Joseph Campbell e sua “A jornada do herói”

Leituras recomendadas:

A jornada do herói- Joseph Campbell

Conduzindo a própria mudança- Joel Câmara

Conscious Business- Fred Kofman

Leader of the Future- The Drucker Foundation

Leadership Gold- John Maxwell

Liderança Baseada em Princípios- Stephen Covey

Liderando Mudança- John Kotter

Psicologia Positiva- C.R.Snyder, Shane J. Lopez

The effective executive- Peter Drucker

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4 comentários

Agradeço por compartilharem grandes mensagens motivacionais e que nos levam a reflexão.
Ótima mensagem !

Em algumas situações da vida, um pacto consigo mesmo pode ser mais comprometedor. Pacto, supõe ética. Seja em qualquer aspecto da existência. Promessas. ..São apenas promessas.

Muito inspirador o artigo. Concordo que tudo começa de dentro para fora. Como o arrebentar de uma semente. Você comprometido com você mesmo para depois obter o compromisso dos outros. O pacto pessoal transforma o líder em um gerador de forças transformadoras alinhadas com todo o universo. E então o universo conspira a favor do líder e ele provoca as mudanças desejáveis.

Mensagem muito verdadeira e mais um belíssimo artigo, amigo! Estamos carentes de pactos pela moralidade e prosperidade… talvez, isto deva começar dentro de cada família (primeira empresa/comunidade de que fazemos parte).

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