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Quem são os líderes?

Nos muitos momentos de grande desafio, e que exigiram grande capacidade de superação e de necessidade de mudança que experimentei em quase 30 anos de carreira, uma pergunta recorrente que me caia sempre como um presente dos céus, e que expressava a plenos pulmões para toda a organização era: O que é que tem que ser feito? O que é que nós temos que fazer?

Esta pergunta tem grande poder de mobilização, tirando muitos de sua zona de conforto, e lhes colocando em estado pleno de recursos, que reduz a confusão e lhes dá armas para lutar o bom combate. Ela guarda intima relação com uma sentença que talvez seja a que estabeleça o maior nível de harmonia e reverbera mais profundamente com o que penso e sinto sobre liderança, e que diz: “…tudo se ergue e colapsa na liderança” (1) , escrito por John Maxwell em seu livro “Leadership Gold”.

Cedo aprendi que muito se falha nas organizações por se dar a devida importância e foco à gestão e à técnica sem que se faça o mesmo com os aspectos da liderança e de seu comportamento, subvertendo a ordem natural, uma questão chave que ainda permanece e, surpreendentemente, ainda não é compreendida adequadamente na sua totalidade, gerando muita confusão e pouca efetividade.

John Kotter, já na apresentação de seu clássico “Liderando mudança”, diz que ao escrever a obra conseguiu “ser mais explícito ao vincular a discussão ao mecanismo que conduz a mudança- a liderança- e ao mostrar como uma mentalidade puramente gerencial falha…”. Mais a frente, diz que o processo de geração da força e motivação para derrotar as fontes de inercia “nunca é empregado de forma eficaz, a não ser que seja impulsionado por uma liderança de alta qualidade, e não apenas por um excelente gerenciamento”.

Peter Drucker, no prefácio de Leader of the Future, escreveu que todos os líderes efetivos que conheceu sabiam de quatro coisas bastante simples:

• A única definição para um líder é de alguém que tem seguidores;

• Que ele não é necessariamente amado ou admirado, mas que seus seguidores fazem a coisa certa;

• Que os líderes são altamente visíveis e que lideram pelo exemplo;

• Que liderança não é posição, privilégios, títulos ou dinheiro, mas responsabilidade

O saudoso Stephen Covey, no seu livro “Liderança Baseada em Princípios”, integra vida pessoal e liderança, e defende que esta última deve ser exercida baseada em determinados princípios de “norte verdadeiro”.

Estas, para mim, são as razões principais de ser liderança a base fundamental de qualquer processo de mudança que almeje alcançar sucesso verdadeiro e sustentável. Como escrevi em “A Tensão Criativa da Vida e os Papéis do Líder e do Gestor”, cabe lembrar que “O líder é o visionário, o gestor o executivo construtor do caminho. O primeiro sonha, aspira e inspira a direção, aponta o caminho a seguir, e instiga o fogo de cada um, inclusive o próprio… O segundo, com apoio do primeiro, pensa a estratégia, os sistemas e ferramentas, e “arregaça as mangas” para encetar a obra de construção do caminho…”.

Nos parágrafos a seguir, aprofundarei o tema da liderança a partir desta pergunta: Quem são os líderes?

Em futuros artigos, darei seguimento a estas reflexões sobre liderança, abordando outras perguntas que se conectam e guardam íntima relação com a anterior, que são: O que fazem os líderes? O que almejam os líderes? O que os líderes devem saber?

QUEM SÃO OS LÍDERES

O que segue pode estar nos manuais e livros sobre liderança, mas não busquei lá, se foi crescendo e brotou. Deriva do que vi, ouvi e, sobretudo, senti vivenciando as certezas, dilemas e dúvidas, as alegrias e tristezas, os momentos de martírio e de alguma glória típicos da experiência de liderar. É a minha própria versão sobre o que é liderança e quem são os líderes.

O melhor que os líderes são e têm deriva de seus atributos humanos que sabem incompletos, e que querem completar e polir. Tudo que escrevo a seguir têm esta mesma fonte. A fonte da força- aura, magnetismo, vontade, disciplina, foco e fé-, da credibilidade e da efetividade do líder.

Líderes são indivíduos que têm uma capacidade especial de, em qualquer campo que atuem, articular e construir um conjunto de ideias que têm poder intrínseco, e de manifestá-las de tal modo que, naturalmente, conquistam mentes e corações de muitos, que passam a lhes seguir.

Esta capacidade especial do líder, o poder intrínseco de suas mensagens e a maneira de veiculá-las, têm uma fonte única: um profundo desejo de servir, de construir o bem, a verdade, e de faze-lo de maneira correta.

Está claro que os líderes fazem e têm seguidores, mas o que mais as pessoas seguem são o conjunto de suas ideias, porque elas lhes fazem sentido, e fazem-no porque guardam intima conexão com seus próprios valores e com princípios universais aceitos como de geração de poder benigno. Sim, o líder é um artista na construção de pontes e conexões entre valores organizacionais e os valores das pessoas, aqueles que as animam e as fazem se movimentar na direção apontada, que cedo se transforma na direção coletivamente construída e perseguida.

O pilar central do líder é o seu caráter, que, na maioria das vezes, julga ainda pleno de defeitos que quer eliminar, de modo que se sinta em estrada de crescimento.

Tenham isto claro em suas consciências, ou não, todos os verdadeiros líderes são criaturas com um profundo senso da incompletude de sua humanidade, e com pressa de correção, buscam inteireza.

São indivíduos com um profundo senso de destino, que querem apurar e construir. Sabem, ou minimamente suspeitam que vivem apenas uma passagem na transitoriedade da vida, e que, portanto, são transitórios o trabalho e as organizações que lideram. Sabem que tudo passa inclusive as empresas que hoje são portentosas e, amanhã, cinzas de uma lembrança talvez nostálgica. Respeitam o trabalho, e o executam buscando maestria, excelência e dedicação, normalmente primorosas, mas utilizam-no como meio para algo maior e permanente.

Por isto, os líderes são pessoas profundamente corajosas, que têm um bom nível de consciência de seus próprios medos, mas que os enfrentam em nome da legitimidade pessoal e organizacional que querem construir.

Também por isto são humildes, porque têm boa consciência de seus próprios limites e os encaram no sentido de ultrapassá-los ou simplesmente aceita-los.

Os verdadeiros líderes, ainda que por vezes possam expor afiados espinhos de uma personalidade em trânsito para patamares mais elevados, têm um profundo respeito pelas pessoas, seus companheiros e irmãos, assim eles acreditam, de estrada na trilha da evolução.

São transparentes, sem qualquer traço de dissimulação- entendem que dissimulação e manipulação são estratagemas que se conectam intimamente, e repudiam a ambos.

São inteiros em suas qualidades e defeitos, dai, buscando equilíbrio, cultivarem certa aversão ao que se tornou comum, popular e ate alvo de comportamento, a conduta do que se convencionou chamar de “politicamente correto”. O líder quer fundamentalmente ser apenas correto, dizer “sim, sim e não, não”, e assume as consequências disto.

Por tudo isto, os líderes são indivíduos para quem os seguidores, em palavras ou não, presentes ou não, mandam uma mensagem verdadeiramente sentida, porque transcende a qualquer articulação que a mente possa fazer, e que pode melhor ser traduzida assim: “eu, verdadeiramente, confio nesta pessoa”.

E você leitor que lidera ou aspira liderar, com que profundidade você se conhece a si mesmo, as suas virtudes, defeitos e os seus valores? Como se relaciona com eles em seu íntimo? Você tem consciência de que isto lhe impacta a efetividade como líder, e de como as pessoas lhe percebem e seguem (ou não)?

São Paulo, 19/09/15

Joel Câmara
Diretor da CoaChange42.
Performance Executive Coach pela PCI- Performance Consultants International (London- UK) e Associate Certified Coach pelo ICF-International Coach Federation .
Foi Plant Manager das duas fábricas de aluminio da ALCOA no Brasil, e diretor industrial e presidente da Hydro Alunorte.
Escreveu o livro “Conduzindo a própria mudança”.

Notas:

(1) “…everything rises and falls on leadership” no original em inglês.

Referencias Bibliográficas:

Conduzindo a própria mudança- Joel Câmara

Leader of the Future- The Drucker Foundation

Leadership Golg- John Maxwell

Liderança Baseada em Princípios- Stephen Covey

Liderando Mudança- John Kotter

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12 comentários

Excelente texto Joel! Me faz refletir sobre o que vivi profissionalmente (inclusive na Alunorte) e o que almejo para o futuro próximo. Me chamou atenção principalmente o trecho “São transparentes, sem qualquer traço de dissimulação- entendem que dissimulação e manipulação são estratagemas que se conectam intimamente, e repudiam a ambos.”
Parabéns. Abs,

Muito bem, Marcos! Fico feliz que o artigo te tenha tocado e com sua participação aqui no blog. Abraço e avanços! Joel

Muito bom texto Joel.

Teu texto aborda os pontos chaves de quem são os líderes, como reconhecê-los, quais são suas características. Isso nos ajuda a nortear nossas escolhas, seja pra definir nossos empregos, nossas amizades, nossos relacionamentos.
Mas uma coisa me veio instantaneamente à cabeça: quem são os líderes (no sentido apenas hierárquico) das empresas atualmente. Vejo que muita gente se angustia por lidar com profissionais em cargos-chaves que claramente não são líderes. E a consciência de quem é um líder verdadeiro aumenta ainda mais essa insatisfação.
Minha dúvida agora é… pq a correlação entre cargos-chaves e líderes é tão baixa? (apenas perpecção, pois não tenho um pesquisa sobre isso). Concordo que as empresas focam no técnico-gerencial em detrimento das características de liderança, mas qual a razão para isso? Falar ou trabalhar a liderança virou apenas uma obrigação, onde ninguém realmente acredita?
Abraços
Miotto

Caro Paulo, obrigado por compartilhar neste espaço as suas duvidas e inquietações acerca deste assunto crucial.
Primeiro, seguindo Drucker (que citei no artigo), eu, como ele, acredito que “leadership must be learned and can be learned…”
Concordo com você que a correlação cargo-chave e liderança(transformadora) é baixa, embora, também, não tenha dados…só uma consulta rápida na memoria em caleidoscópio me diz que a nossa opinião bate com a realidade…
Acho que a resposta está em um aspecto fundamental que caracteriza os verdadeiros lideres: porque são orientados por princípios e valores que tem natureza holística, são pessoas que constroem grande interdependência, mas que podem ser extremamente independentes quando estes valores são afetados..são sujeitos de natureza desapegada…
Outro aspecto: os lideres são pessoas que buscam seguir o chamado socrático do “conhece-te a ti mesmo…”. Para mim, aprender a ser líder passa por isto como fundamento…ai nascem consciência ampliada e coragem para ser e fazer o que deve ser feito…são pessoas interessadas em expandir sua cultura como forma de espantar ignorância geral e o fantasma ignorante dos preconceitos…por isso, são, dentre outras coisas, bons leitores de humanidades…É uma tarefa difícil, que antigo professor meu chamava de “o longo caminho curto…”…não tem muita gente que se candidata…
Quando Elkinton trouxe o paradigma do “tripple bottom line”, os três Ps- People, Planet and Profit, o mundo empresarial e dos negócios deu um salto potencial que precisa ser atualizado…ainda vivemos de um modo geral nas organizações no P que mais conta, o do $$$$…aqui está uma razão para um foco maior na gestão, que é transacional e nada transformacional…por exemplo, gerentes não abdicariam nunca de bonus, lideres podem propor a sua eliminação…
Mas reconheço que estamos tratando de assunto bastante complexo…estamos onde estamos na curva ascensional do estado civilizatório…sou otimista, disse ascencional…Veja a Alemanha de Merkel, que esta dando de 7 x 1 no mundo, emocionante…

Parabéns pelo excelente texto, Joel!

Para mim, ser líder é isso aí… transpirar sentimentos e se fazer entender com palavras, atitudes e posturas. É sofrer em alguns momentos de tomada de decisões difíceis e influenciar adesões e comportamentos sem falsas promessas ou troca de favores.

Abraço.

Isso, Cirlã! Mente plugada no coração… palavra, ação e emoção vibrando no mesmo diapasão, para gerar poder benigno.

Jose Francisco Garces Martins

Parabens Amigo Joel, pela publicação desse artigo, como sempre dando
lições de lidrerança.

Meus Parabéns meu amigo. mais um gol de placa que voce marca.
Abraços.

Obrigado, Bouty. Participe para que possamos ampliar as fronteiras desta discussão, uma necessidade premente hoje, no mundo, no Brasil e nas organizações.

Parabéns meu amigo! Ótimo texto! Sucesso e prosperidade sempre! É isso!

[…] em “Quem são os líderes?” que estes são pessoas com profundo senso de destino a construir, pedra a pedra, tijolo por tijolo, […]

[…] em “O que fazem os líderes” que os comportamentos dos líderes seguem o que eles são, sendo consequência natural de suas crenças e de seus paradigmas fundado em valores. Vimos, […]

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