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O Poder dos Paradigmas e o Líder e a Liderança de Processos de Mudança

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Há pouco saindo da Casa Rosada, em Buenos Aires, onde visitei as salas dos líderes latino-americanos, depois de ter percorrido uma boa parte da Av. Corrientes a partir do Obelisco da Nove de Julho, que celebra as grandes datas da nação argentina, até a famosa Plaza de Mayo em frente ao palácio do governo, na belíssima capital portenha, em minha cabeça pululavam vibrantes algumas ideias acerca dos inquietantes temas da realidade e sua percepção, da ideologia e sua construção no tempo e sobre a conexão destes temas com outros acerca de quem são os líderes e o que é liderança.

Ao lado de evidente e alegre constatação em poucas horas de Buenos Aires de que esta é realmente uma belíssima cidade a justificar positivamente o orgulho argentino por ter construído tal pérola, eis o que se me passou na mente: uma das inúmeras questões, inclusive os seus problemas, que derivam de todas as instituições, marcadamente as oficiais que representam governos que se apresentam como “revolucionários”, ou com tintas “revolucionárias”, ou de outra maneira, “populares”- bem ao sabor do populismo que ainda recebe acolhida calorosa, até apaixonada, de boa parte dos sangues que correm nas veias latino americanas – é o poder real, benigno ou maligno, que este ideário tem de influenciar muitas gerações, criando paradigmas que plasmam o inconsciente coletivo de todo um povo, acelerando, ou retardando, ou ate mesmo bloqueando processos de desenvolvimento e crescimento socioeconômico.

Diante disto, é muito grande a responsabilidade histórica dos lideres que estejam sentados em casas rosada, verde amarela, ou de qualquer outra tinta, de terem clareza de que não servem a ideologias, mas sim à população que vive a realidade de um determinado contexto histórico no presente, para o que -tarefa bastante desafiante para os líderes liderarem- devem desencadear processos que achem e determinem as convergências que contemplem os interesses de todos e forjem benefícios para a maioria, ao mesmo tempo em que a consciência da responsabilidade de cada um pelo crescimento individual e coletivo autossustentado no tempo. Implícito está neste processo uma tarefa particularmente gigante e complexa, a de também olhar, compreender e interpretar a realidade com filtros da história, inclusive de outros povos, de maneira verdadeiramente aberta e democraticamente dialética.

Compartilho da ideia de que as revoluções e ideologias de qualquer matiz e contexto histórico nascem com prazo de validade, fato que a história já demonstrou inúmeras vezes e que independe de vontades, cabendo portanto aos lideres de povos e organizações terem isto solidamente presentes em suas consciências. Mais que isto, cabe a eles a partir de determinado instante do contexto histórico trabalhar de maneira proativa para desconstruir os seus pressupostos originais- apenas porque já não se aplicam mais- e iniciar uma nova ordem. Muitos governos e líderes do passado e do presente tiveram e têm esta oportunidade de ouro: a de abandonarem o status consagrado que conquistaram de líderes revolucionários, para, transmutando-se, assumirem a coragem de romper com o ideário do passado- apenas porque, à luz da realidade presente, se tornou grande empecilho para o progresso e avanço para patamares mais elevados de prosperidade e abertura-, e arregaçarem as mangas para a construção de um tempo novo.

Enfim, no que toca às ideologias, mesmo que aclamadas por muitos em muitas gerações, o líder verdadeiro é aquele que tem a coragem de emergir do mar de certeza incontestável, e, assumindo uma atitude filosófica, utiliza-se da dialética para servir ao pragmatismo que visa o bem comum e da maioria em um dado contexto histórico. Para tal, ele faz perguntas simples, mas poderosamente reveladoras tais como:

• Quais os fundamentos do que está posto?
• Em que contexto histórico foi gerado?
• A quem serviu e a quem serve?
• O que é correto e justo fazer no presente contexto, que atenderá aos interesses da maioria e fará todos crescerem no porvir?

Assim, o líder verdadeiro sabe que ideologias são apenas quadros de referência, mapas que se desatualizam com o tempo, não o território da realidade em constante mutação.

Mas o que isto tem a ver com líderes e liderança nas organizações e com seus processos de mudança sempre presentes?

Paradigmas e ideologias- estas últimas, casos particulares dos primeiros-plasmam comportamentos, culturas e subculturas organizacionais. Isto tem muito poder, para o bem e para o mal, de eficácia e de grandes ineficácias.

Os verdadeiros lideres têm plena consciência de que paradigmas são ao mesmo tempo apenas uma representação limitada da realidade e uma tentativa de construção de realidade nova ou modificada, em um ajuste que nunca terá fim. Assim, ele sabe que é tanto construtor de paradigmas quanto deve ser desconstrutor deles, inclusive daqueles criados por ele próprio.

Quando pensamos no axioma de que a única certeza que temos em qualquer tempo é a de que tudo já esta mudando, inclusive nós próprios, com nossa concordância ou à nossa revelia, sob a influência de contextos históricos que se formam resultantes de forças diversas- hoje, contundentemente, a tecnológica-, isto se torna muito evidente, na verdade uma necessidade que se apresenta vibrante e imperativa.

As mudanças e seus paradigmas não se sustentam para sempre, mas tornam-se sustentáveis sob esta égide, a de que é necessário desconstruí-los e ou continuamente ajustá-los, para que novas realidades surjam- esta é a melhor forma de se chegar à realidade que queremos e sonhamos na continuidade do tempo em que novos contextos históricos desabrocham.

A falta de consciência destes movimentos atrasam pessoas, organizações, países e o bonde da história.

Contudo, a dúvida é alimento permanente do processo dialético, assim como a certeza sua inimiga potencial permanente.

Trago isto para pontuar algo a mais sobre o líder e a liderança efetiva à luz de questões em torno de paradigmas e de processos de mudança que se apresentam: que ele nunca é intransigente, e que deve ter sempre a humildade luminosa de não se achar o dono da verdade, entendendo que esta é construída no tempo sob a pulsão da abertura para novas ideias geradas no exercício voluntário do processo dialético democrático, que constrói outras sínteses, visões e ações, e com estas, novos patamares de poder benigno.

Enfim, o líder sabe que paradigmas e ideologias são verdades parciais relativas a um determinado contexto histórico, que com o passar do tempo podem se transformar em grandes mentiras por se afastarem dramaticamente da realidade, da busca genuína de sua compreensão e de sua construção a serviço das organizações e da humanidade, podendo, inclusive, se transformar em terrorismos de intensidades e matizes diversos.

Buenos Aires, 28 de junho de 2015.

Joel Câmara
Diretor da CoaChange42.
Performance Executive Coach pela PCI- Performance Consultants International (London- UK) e Associate Certified Coach pelo ICF-International Coach Federation .
Foi Plant Manager das duas fábricas de aluminio da ALCOA no Brasil, e diretor industrial e presidente da Hydro Alunorte.
Escreveu o livro “Conduzindo a própria mudança”.

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1 comentário

[…] eles são, sendo consequência natural de suas crenças e de seus paradigmas fundado em valores, que eles buscam revisitar e confrontar periodicamente, visando redefinição, atualização ou confirmação que consolida e, em qualquer dos casos, […]

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